Minha avó, Ana Maria Damasceno, cantava e tocava acordeon. Também saca de piano. Afinada, ousada e toda empoderada, ela me influenciou com seus conhecimentos, sua sabedoria e habilidades.

Aperte o play e deixe-se levar pelo ritmo dessa história.

Nasci em 1984, em Niterói, Rio de Janeiro. Cresci vendo minha avó ler de cabo a rabo o jornal O Globo todo santo dia. E olha que naquela época o jornal era maior. Eu não gostava de ler. Achava um saco ficar parada olhando pro papel. Eu era muito agitada, enérgica. Depois de grandinha, adivinhe só, me apaixonei pela escrita, me tornei jornalista e lancei um livro.

Além de ter assistido o hábito da leitura, cresci vendo minha avó curtir música clássica, de meditação e New Age. Em casa tinha um monte de disco de vinil, era muito estímulo musical. Minha vó me apresentou, por exemplo, Enya, que marcou demais minha infância e que escuto até hoje.

Inclusive, escolhi a dedo essa trilha sonora para tornar sua leitura mais agradável e porque ela fala muito comigo, me inspira e emociona, diz sobre meus anseios e me traz bons sentimentos. “Orinoco Flow” é um single da cantora Enya lançado em 1988 mundialmente. A canção fala sobre deixar fluir, sobre navegar para longe.

O MISTÉRIO DA MÚSICA NA INFÂNCIA E SEUS REFLEXOS

Eu brincava de DJ e girava os vinis no toca-discos pra ver o que acontecia. Eu lembro muito da marca Som Livre na maioria dos LPs. Também gostava muito de Xuxa, claro. E rodava os discos de trás pra frente pra desvendar as mensagens subliminares na voz do diabo, como dizia a lenda. hahaha.

Tínhamos grandes caixas de som em casa e eu adorava brincar com fones, microfones, gravadores de voz, karaokê e com coisas eletrônicas. Eu abria rádios de pilhas pra ver como era por dentro e conectava fios coloridos pra ver o que acontecia. Com isso, eu desenvolvi a paixão pela música, pelas ondas sonoras, pelas notas musicais. Eu ficava encantada e entusiasmada para entender como aquele som poderia sair de uma caixa preta de madeira. Essa curiosidade me levou às aulas de música, especificamente de teclado, bateria, canto e violão.

Aos 6 anos, mais ou menos, eu tinha um piano de verdade, só que infantil. Rs. Era exatamente esse modelo da foto. Minha mãe vai chorar de emoção ao ver isso aqui. Imagina eu pequenininha sentadinha no banquinho tocando esse piano. Agora imagine minha mãe lembrando disso.

Eu amava esse piano. Mas eu o estraguei. Resolvi abrir essa parte de cima, desparafusar tudo pra ver como era por dentro. Queria entender como o som chegava nas teclas. Mexi tanto nele que as teclas pararam de funcionar. Mas eu não fiquei triste. Muito pelo contrário, pois consegui o que queria. Entendi o sistema interno que fazia a tecla reproduzir o som. Mesmo ele não funcionando, o mantivemos em meu quarto. Era um item de decoração.

O VÔ MARCENEIRO

Essa “mãozinha inquieta” que eu tinha também teve influência do meu vô Alcebíades, já falecido. Ele foi um excelente marceneiro e eu adorava vê-lo trabalhar. Ele construía lindos móveis e os vendia.

Ele fez pra mim vários brinquedos de madeira. Carrinho de rolimã, estilingue e um campo de futebol de botão imitando o Maracanã. Era redondo e tinha bonecos, jogadores, dentro do campo. Ao redor, ele colocou até placas com propagandas pra deixar o cenário mais real. Mas o grande barato desse tabuleiro gigante eram os dois goleiros. Meu vô fez os bonecos de goleiro com os braços abertos, simulando o momento em que eles se esticam para defender a bola. Só que ele colocou imã no corpo todo do boneco, então quando a bolinha batia no goleiro, ela prendia por causa do efeito do imã. Pimba, o goleiro defendeu! Hahahaha, não é máximo?

O ESPORTE E A VEIA ARTÍSTICA E ARTEIRA

Queria também ser jogadora profissional de futebol. Jogava bola com os meninos e era chamada de Romarinha, porque eu era fã de Romário no Flamengo e de tão craque que eu era nos dribles e gols.

Também quis ser surfista profissional. Fiz aulas na escolinha do professor Leps, na praia de Piratininga, em Niterói, e pegava onda em Itacoatiara toda semana, na adolescência.

Uma das coisas que eu queria muito com a música era tocar Tarol/ Caixa na ala da bateria da Viradouro, escola de samba de Niterói, minha cidade natal. Não realizei isso, mas tive duas bandas. Uma se chamou Apocalipse (de rock estilo grunge) com mais dois amigos e uma amiga, eu era baterista, e nós ensaiávamos no meu quarto. Sim, minha avó me deu uma bateria completa e ela ficava em um dos quartos. Eu tinha uns 12 anos. Lembro até hoje.

Eu tinha muitos sonhos com a música. De alguma forma o meu propósito já pulsava sem eu saber que tinha esse nome. Queria ser uma musicista reconhecida e inspirar e emocionar as pessoas com minhas composições.

Depois, aos 20, mais ou menos, eu tive uma banda de reggae só de meninas. Se chamava Filhas de Jah. Eu tocava violão, cantava e compunha as músicas do nosso grupo. Falávamos de vida, Deus, natureza, surf e chegamos a fazer uns shows numa igreja evangélica. Preciso muito resgatar fotos dessa época.

Já em relação às minhas tentativas “artísticas” e/ou arteiras: coloquei fogo no pneu da bicicleta, uma Caloi Ceci, pra ver o que acontecia. Adorava criar meus próprios obstáculos para saltar de skate e patins. Andar de patins não era suficiente, eu queria criar movimentos diferentes, pular e inventar algo novo.

Também era comum brincar no terraço com cimento, barro, pá, tinta, água. Amava subir em árvores e pegar frutas. Vivia descalça, sujinha, com as uninhas das mãos e pés encardidas e toda descabelada. Sem falar em construir e soltar pipas com meu pai. Ele me levava pra festivais de cafifa (outro modo de chamar a pipa). Adorava passar cerol na linha e fazer rabiolas gigantes e coloridas. Acho que hoje são proibidos o cerol e os festivais de pipa e balão.

Vivia me machucando. Achava o máximo engessar o braço e pedir para os amigos assinarem e deixarem seus desenhos. Amava carrinho de rolimã e coisas de madeira e rodinha.

Uma vez enfiei meu cabelo num mini ventilador pra ver o que acontecia. Estragou meu cabelo e pifou o ventilador.

Eu era muito arteira, mas não por isso ficava de castigo. Já coloquei uma barata morta dentro de uma caixa de fósforo, embalei com um lacinho e dei de presente pra minha mãe. Queria ver o que acontecia.

Minha infância foi a base da criatividade livre. Aprendi a tocar teclado, bateria, violão, a cantar e compor músicas. Tenho pelo menos umas 20 músicas autorais. Meu tema-paixão principal era a música até 2013. Mas tive que fazer uma escolha, difícil por sinal, e investir em outra paixão: a comunicação e o empreendedorismo. Sempre quis de alguma forma inspirar, emocionar e tocar o coração das pessoas.

Reconheço hoje que minha infância e adolescência, super resumida aqui neste artigo, têm impacto direto na minha vida profissional. Hoje eu consigo utilizar muitas habilidades que desenvolvi naquela época para criar coisas novas, pra me reinventar e solucionar problemas.

SOBRE PILOTAR E BANCAR AS PRÓPRIAS DECISÕES

Hoje eu percebo que aprendi a ser corajosa e a me virar sozinha em muitas situações. Eu adorava carros e motos. Mais moto. rs. Tenho as duas habilitações e dirijo desde os 18. E então fui atrás disso e, mais ou menos aos 24, eu comprei uma Suzuki Intruder, moto estilo Custom, tipo uma Harley-Davidson só que mais magrinha. Neste ponto eu fui muito contrariada. Minha família não me apoiava nesta decisão por motivos de assalto e perigo no trânsito. O medo era que eu morresse em um acidente. Essa era a real. hahaha. Mas eu queria muito e realizei esse sonho. Não morri, tô aqui!

Rodei muito de moto, adorava, era tudo mais fácil e econômico. Vento batendo no corpo, sol, frio, chuva, tensão nos braços e nas pernas. Passeava pra caramba! Carregava um monte de gente comigo pra lá e pra cá. Fazia compras de mercado, ia à praia, faculdade, etc. Era short e tênis direto. Muito bom!

Acho até que minha habilidade de baterista me fez aprender rápido a pilotar uma moto. Afinal, pra pilotar você precisa ter muita coordenação motora. Na moto vc tem o guidão com acelerador do lado direito, e embreagem e freio no lado esquerdo. Nos pés você tem outro freio do lado direito e a marcha no lado esquerdo. Se eu não me engano, é isso mesmo. Enfim, você usa mãos e pés o tempo todo fazendo coisas diferentes.

Mas vendi minha motoca quando me mudei pra São Paulo, em 2012. Achei melhor e minha família deu aquele suspiro de alívio e agradeceu a Deus por eu ter abandonado essa ideia perigosa e “maluca” de ter moto. Minha avó deve pensar assim: “Deus ouviu minhas preces”.

Bem, o que quero dizer com isso tudo é que eu acredito que eu sempre fui inquieta e tinha que ter diferentes maneiras de extrapolar minha criatividade e aproveitar a vida. Se eu queria descobrir algo, eu ia lá e fazia. Aprendi a criar meus próprios métodos pra ver o que acontecia.

Você já teve uma sensação parecida como essa aqui?

“Cara, eu tinha muito mais coragem quando eu era mais jovem. Hoje não entraria nesse mar agitado. Hoje eu não entraria nesse brinquedo no parque de diversão. Hoje eu não andaria por essa rua deserta. Hoje eu não faria isso ou aquilo…”

Poderia analisar vários aspectos. Acho que o mundo ficou mais perigoso e tem coisas que, quando adolescentes, fizemos por irresponsabilidade e etc coisas do tipo. Mas tirando o perigo irresponsável da reta, tem uma coisa que eu descobri que a gente vai perdendo ao longo da vida. Coragem criativa.

Como uma empreendedora que vive guiada pelo propósito, percebo o quão necessário é ter coragem criativa. É preciso resgatar a fundo lembranças e habilidades da infância que nos foram passadas pelos nossos pais e familiares pra aplicar na vida profissional. Isso não é ensinado em faculdade e não existe diploma pra isso.

CORAGEM CRIATIVA

Neste contexto, coragem criativa é sobre saber fazer conexões entre o seu background de vida, a sua história pessoal, com o seu trabalho.

É sobre saber se encorajar de novo para romper as barreiras do medo da vida adulta. É sobre nos libertar de nós mesmos e de pensamentos ridículos que ocupam nossas mentes. É sobre, inclusive, saber a diferença entre o ridículo e o genuíno. Tenho certeza que você já deixou de fazer coisas genuínas por achar que estava sendo uma pessoa ridícula. Num é? Digo isso porque eu também passo por isso. Toca aqui, tamos junto.

Coragem criativa é sobre aprender a diferenciar perigo real de covardia. Por vezes nos escondemos atrás de falsos perigos. Lá no fundo a gente a sabe quando é perigoso mesmo e quando a gente dá a melhor desculpa para não ir e arrebentar a boca do balão da vida.

Tá com medo? Vai com medo mesmo e resolva os dramas no meio da jornada.
Não dá pra ir em frente só depois de resolver os problemas. A lógica é inversa. A gente inclusive resolve os problemas e os medos quando se coloca em movimento, quando vai. Se ficar esperando tudo se resolver, putz, aí mesmo que tudo fica parado.

A vida está gritando todos os dias implorando pra gente desabrochar mais e mais, pra gente colocar pra fora o que há de mais foda e original que ainda está entulhado por dentro. Pelamor de deus, ou melhor, pelo amor próprio. Vamos germinar sempre!

Quando eu criei o Marketing de Gentileza eu não fazia ideia do que ia acontecer no futuro. A única coisa que eu desejava muito era: inspirar, emocionar e tocar o coração da pessoas (o mesmo sentimento se fosse com a música). Eu pensava basicamente: “Eu quero tirar do papel esse projeto, transformá-lo em um negócio com propósito e ter reconhecimento”.

Mas a gente nunca sabe exatamente o que vai acontecer. Tive muito medo. Medo de fracassar, de ser tudo uma merda, de não conseguir comunicar minha mensagem-chave para as pessoas, medo de não conseguir ter um negócio de verdade, que me desse lucro. Tive medo que o MDG morresse sendo apenas mais um blog perdidão no mundo virtual. Foram dezenas, sei lá, centenas de medos. Ainda tenho, claro. Mas vambora assim mesmo e no meio do caminho vamos descascando os abacaxis.

Tem coisas que ninguém ensina pra gente, mas a gente tem a escolha de aprender. Eu tenho certeza que minha avó não estava preocupada em ler o jornal O Globo todo dia e ouvir músicas de qualidade só para servir como uma didática de ensino na minha educação. Ela fazia isso porque ela gostava! O prazer era dela. Mas eu escolhi olhar para esses detalhes, para cada experiência, e conectá-las de uma forma mais direta com a minha história de vida e com a minha jornada empreendedora. Isso me deu uma baita coragem criativa. Isso me deu entusiasmo, orgulho e gratidão da minha família, me fez chegar a várias conclusões.

Por fim, tudo isso que escancarei, que abri com você, foi a maneira que encontrei para dizer que a vida profissional não é desconectada da infância. É apenas uma continuação. É pra mim, a melhor maneira de transcender as minhas raízes, meus sonhos, e tudo o que eu sempre tive de mais autêntico e criativo.

A coragem criativa é também um excelente recurso para reinventar, curar mágoas, transformar realidades, tirar projetos do papel (aqueles que estão encalacrados) e navegar para longe, para onde quiser.

Como diz Enya: “Sail away, sail away, sail away”.

Conte comigo para “navegar para longe, navegar para longe, navegar para longe”.

Obrigada por navegar até aqui. Sei que foi um artigo super longo e acredito que você navegou longe porque se identificou e deseja cultivar a coragem criativa na sua vida profissional.

O campo de comentários está livre para você criar coragem e escancarar também. 😉

Sobre o autor Veja todos os posts Site do autor

Laíze Damasceno

Criadora do Marketing de Gentileza, mentora de Estratégias de Conteúdo Digital e Humanização de Marcas. Eu te ajudo a conquistar o reconhecimento e a confiança do seu público com estratégias de conteúdo humanizado, autêntico e com propósito. Criei o Marketing de Gentileza com a missão de ajudar a humanizar as relações virtuais entre marcas e pessoas. Eu acredito que Marketing não é apenas sobre marcas, serviços, produtos ou eventos. É sobre relações humanas. E que criar conteúdo é a melhor forma de deixar o seu legado no mundo. Conte comigo para conquistar o reconhecimento e o engajamento com o seu público com um Conteúdo que Gera Confiança!